Embora já houvesse traços de natureza-morta em murais da Roma Antiga, é no início do Barroco, durante o século XVI, que ela tornou-se independente ao retratar temas religiosos em cozinhas populares, como o óleo sobre tela de Diego Velázquez, “Cristo na casa de Marta e Maria” (National Gallery de Londres – Inglaterra):

A luz, importante elemento visual da arte do Barroco, é o que dá ritmo à obra, conduzindo o olhar sobre a composição e aos níveis de profundidade. Percebe-se que a reprodução ideológica do objeto observado, dentro de um contexto religioso, traria certas interpretações. “A natureza-morta passou a funcionar como metáfora moralizante dentro da cultura católica: a fruta que é bela por fora, mas apresenta indícios de podridão interna; ou apenas uma fruta que ostenta uma beleza tentadora e perigosa”. (3) Mais tarde, outras representações, fora desse contexto religioso, definiriam mais uma função da natureza-morta – o livro representava a sabedoria, a caveira representava a brevidade da vida. (Paul Cézanne – Pirâmide de Crânios, Grand Palais Exhibition, Paris, França, 1900).

Na Espanha, chamada de “bodegón”, a natureza-morta tinha o intuito de demonstrar a imagem do objeto que representasse harmonia, serenidade e bem-estar por meio de efeitos de luz, cores e perspectivas. O artista espanhol tornava-se cada vez mais respeitado à medida que demonstrava ter um amplo conhecimento técnico-artístico para a representação da realidade.
No século XVII, considerada inferior em relação às pinturas históricas, mitológicas e religiosas, a natureza-morta tinha seu preço desvalorizado no mercado das artes. Vista como uma pintura meramente decorativa, ela ocupava, nos Países Baixos, os cômodos mais humildes dos lares populares. A tentativa de se afastar dessa ideologia católica fez com se passasse a retratar o uso cotidiano dos objetos das casas populares holandesas.
O pintor holandês Veermer, em sua obra “A leiteira” (tela pintada por volta de 1669) retratou o trabalho lento e meticuloso que retratava uma típica mulher holandesa da época. Com completa precisão, o pintor retrata a realidade de uma camponesa junto a objetos e comidas do cotidiano. Veermer age como um fotógrafo ao descrever com suavidade e com riqueza de detalhes a cena descrita.

A partir do século XVIII, na Espanha, a natureza-morta começou a ter mais prestígio nas classes sociais mais abastadas. O peixe, por exemplo, deixou de ser representado a partir de uma manifestação religiosa para retratar o elevado poder econômico de seu consumidor. Como Madri era localizada no centro do país, distante do mar, o peixe fresco era um produto muito mais caro do que o seco e, por conseguinte, era apenas adquirido por classes sociais com maior poder aquisitivo.
No século XIX e no início do século XX, a natureza-morta afasta-se definitivamente de qualquer gênero preestabelecido. A partir do estudo de novas técnicas, mediante a aplicação de cores, composições, perspectivas, ela serviu para a pesquisa plástica dos artistas. O naturalismo do século XVII definitivamente perderia sua importância em prol das novas concepções estéticas na arte.
Na obra de Cézanne, “Natureza morta com maçãs e laranjas”, por exemplo, há uma preocupação estética por parte do artista que não se resume, apenas, à mera representação científica do objeto. A distorção provocada pelos objetos pintados, tomando como origem diversos planos de perspectiva, denota um afastamento dos preceitos do Naturalismo. Cézanne, nessa obra, preocupa-se em preencher todo o espaço da tela, aplicando assim novas técnicas de angulação nessa representação. A realidade, agora distorcida, representaria dois pólos distintos: o da realidade científica e o da visão que retratava distintas “realidades”.

Arte e Representação

Essa obra do pintor Magritte, “Isto não é uma maçã”, exemplifica uma possível discussão sobre diferentes interpretações oriundas daqueles que observam um objeto. O artista quis demonstrar que a maçã pintada na tela não retratava a realidade. Magritte, associado aos surrealistas, questionava o que era a realidade.
Conforme afirmava Fernand Léger, “é tarefa do artista fazer algo tão bonito quanto a natureza, mas em imitar a natureza”. Assim, evidencia-se o caráter criativo e individual do olhar e do registrar.
Em 1959, Marcel Duchamp tratou o tema da natureza-morta de forma irônica e divertida quando construiu a obra “Escultura morta”. Ele fez críticas à arte tradicional, defendendo que arte não era o que víamos, mas sim o que pensamos ao observá-las.
Os artistas tem muita dificuldade de fazer uma natureza-morta; dado o tempo necessário para a pintura, muitas vezes o artista tem de conviver com a deterioração do produto observado, no caso de alimentos naturais, peixes, etc. Isso faz com que o autor da obra muitas vezes tenha de refazê-la, demonstrando a importância da observação, da memória e da sensibilidade na pintura.